C. S. Lewis, o Céu e a Nova Terra (C. S. Lewis on Heaven and the New Earth)

O Remédio Eterno de Deus ao Problema do Mal e do Sofrimento (God’s Eternal Remedy to the Problem of Evil and Suffering)

O Racionalista Romântico, Capítulo 5

Cresci em um lar sem Cristo. Meu pai era um dono de taverna que odiava cristãos em geral, e pastores em particular. Meu pai e minha mãe haviam sido casados antes, e suas brigas me faziam temer que outro divórcio chegaria em breve.

Apesar de manter as aparências, por dentro eu sentia um vazio que me corroía. Minhas escapatórias eram as revistas em quadrinhos e os livros de ficção científica. Eu ansiava por alguma coisa maior do que eu mesmo. Estudava as estrelas e os planetas e, em cada noite clara, passava horas observando-as com meu telescópio. Certa noite, descobri a grande galáxia de Andrômeda, com o seu trilhão de estrelas, a 2,5 milhões de anos-luz de distância. Enchi-me de espanto. Queria ir até lá explorar suas maravilhas e perder-me em alguma coisa maior que eu.

Meu espanto só perdia em intensidade para um sentimento insuportável de solidão e separação. Eu queria adorar, mas não sabia a quem. Eu chorava porque me sentia incrivelmente pequeno. Sem que eu soubesse, Deus estava usando as maravilhas do universo para me atrair para si. Como diz Romanos 1, eu estava vendo, no que ele tinha feito: “Os atributos invisíveis de Deus [...] o seu eterno poder [...] sua própria divindade” (v. 20).

Uma noite, muitos anos depois, abri uma Bíblia e vi estas palavras pela primeira vez: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). E então li o versículo 16, o maior dos eufemismos: “fez também as estrelas”. Um universo de cem bilhões de anos-luz de diâmetro, contendo incontáveis trilhões de estrelas, e a Bíblia faz parecer um mero adendo casual!

Logo entendi que este livro trata da Pessoa que criou os céus — incluindo aquela grande galáxia de Andrômeda, e a Terra — e a mim também.

Como eu não tinha pontos de referência quando li a Bíblia, não foi só o livro de Levítico que me confundiu. Mas, quando cheguei aos Evangelhos, tudo mudou. Fiquei fascinado por Jesus.

A princípio, pensei que Jesus era fictício — um super-herói, como nas histórias em quadrinhos. Entretanto, tudo a respeito de Jesus tinha um tom de verdade. Foi aí que compreendi algo incrível. Ao ler a Bíblia, eu tinha passado a crer que Jesus é real. Por um milagre da graça, ele transformou a minha vida.

Descoberta de Lewis

Romantic Rationalist in PortugueseEu estava faminto pela verdade, então regularmente visitava uma livraria cristã, que exibia milhares de lombadas de livros na garagem reformada de uma casa. Certo dia, deparei com um livro chamado O problema do sofrimento. Foi meu primeiro encontro com C. S. Lewis.

Surpreendi-me com sua perspicácia e com sua clareza. Ele lembrava como era a vida antes de conhecer a Deus, assim como eu. Falava de anseios, como o meu. Voltei à loja e encontrei a trilogia espacial de Lewis: Além do planeta silencioso; Perelandra; e Uma força medonha.

Minha igreja havia me deixado a impressão de que usar a imaginação podia ser pecado, e então presumi que minhas leituras de ficção científica eram coisa do passado. No entanto, este mesmo autor que mostrava um discernimento fenomenal também havia usado a imaginação para escrever obras cativantes de ficção científica. Perelandra continha teologia profunda, com Maleldil e os oyarsa, a Dama Verde, e Ransom, o tipo de Cristo, lutando contra Weston, o não homem e tipo do Diabo. Fui transportado a outro mundo e, ao mesmo tempo, mergulhado no evangelho — mergulhei de cabeça.

Meu telescópio ficara sem uso por anos. Depois de ler a trilogia espacial de Lewis, levei-o para o quintal e contemplei novamente a galáxia de Andrômeda. Chorei de novo. Dessa vez por uma razão bem diferente: gratidão. Agora eu conhecia pessoalmente o Deus que havia criado o trilhão de estrelas e os incontáveis planetas da galáxia de Andrômeda e da Via Láctea.

Claro, eu ainda era pequeno, mas havia conhecido aquele que é infinitamente grande. Finalmente, eu sabia a quem devia adorar. Eu estava do lado de dentro, não de fora. Não era mais a estrela de um drama deplorável sobre a minha pessoa; era um ator em uma história de grandeza infinita. Então li As crônicas de Nárnia. A verdade pulava em mim a cada página. Em O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, li que “[Aslam] não se trata de um leão domesticado.1 [Aslam é] perigosíssimo. Mas acontece que é bom!”.2

Em A cadeira de prata, li sobre Jill Pole. Desesperada para saciar sua sede, ela queria que o leão prometesse que não a devoraria se ela se aproximasse para beber. Quando este se recusou, ela decidiu procurar outro riacho. Embora fosse cristão há pouco tempo, quando Aslam disse “Não há outro [riacho]”, eu sabia exatamente o que ele queria dizer. E quando vejo Deus operando, às vezes ainda repito palavras de Nárnia: “Aslam está a caminho”.

Em Príncipe Caspian li cem páginas de teologia derramadas em duas sentenças: “Descende de Adão e Eva — tornou Aslam. — É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra”.3

Vez após vez, a teologia de Lewis me deixava atônito. Lúcia diz a Aslam que ele parece ser maior do que era antes, e Aslam diz: “à medida que você for crescendo, eu parecerei maior a seus olhos”.4 Já naquela época, e ainda hoje, o Deus imutável parece cada vez maior aos meus olhos.

Lidando com perguntas difíceis

Lewis foi o primeiro a ajudar-me a lidar com as grandes questões da vida. Em O problema do sofrimento, ele descreve a maneira como costumava argumentar contra a fé cristã:

Há poucos anos, quando eu era ateu, se alguém me perguntasse: “Por que você não crê em Deus?”, minha resposta teria sido algo assim: “Olhe para o universo em que vivemos”. […] Sua história é, em grande medida, um registro de crimes, guerras, doenças e terror […] O universo […] está parando [...] Todas as histórias serão nada: toda vida terá sido, afinal, uma contorção transitória e sem sentido na face idiota da matéria infinita. Se você me pede que eu acredite que esta é a obra de um espírito bondoso e onipotente, respondo que todas as evidências apontam para a direção oposta. Ou não existe nenhum espírito por trás do Universo, ou então existe um espírito indiferente ao bem e ao mal, ou ainda um espírito maligno.5

Amei o fato de que Lewis claramente articulou o problema do mal e do sofrimento melhor do que a da maioria dos ateus, incluindo Richard Dawkins. Mesmo assim, ele adotou uma cosmovisão bíblica que tinha um poder de explicação bem maior do que o seu ateísmo. E transmitiu essa cosmovisão a mim e a inúmeros outros.

Jovens entram na faculdade sem preparo intelectual para o que enfrentarão. Vamos alimentá-los com Lewis sobre o mal e o sofrimento antes que ouçam os urros de seus professores ateus e agnósticos, a maioria deles pigmeus intelectuais perto de Lewis. Não deixemos que seja o mundo a fazer as perguntas difíceis — a Bíblia levanta essas mesmas questões e as responde bem melhor que qualquer outra cosmovisão. Lewis foi o primeiro a me mostrar isso.

Conhecedor do sofrimento

Há alguns anos, reli O problema do sofrimento e A anatomia de uma dor, um logo após o outro. O problema do sofrimento é mais fundamentado e lógico, enquanto A anatomia de uma dor contém sofrimento bruto, a dor esmagadora que Lewis expressa após a morte de sua esposa, Joy. Os livros são complementares, mas, dado o seu contexto, não contraditórios.

Há dois filmes sobre C. S. Lewis intitulados Terra das sombras. Ambos são bons, mas a versão da BBC é geralmente mais fiel aos fatos. Na versão de Hollywood, o personagem de Lewis é interpretado por Anthony Hopkins. O filme caracteriza Lewis como um professor em uma torre de marfim que conhecia pouco sobre o sofrimento. Quando sua esposa, Joy, morre de câncer, o filme o retrata a duvidar das coisas supostamente superficiais que escrevera em O problema do sofrimento. No final do filme, Lewis senta-se no sótão ao lado do seu jovem enteado, Douglas Gresham. O verdadeiro Doug Gresham é meu amigo, e já conversamos sobre esse falso retrato de Lewis.

No livro Surpreendido pela alegria, Lewis fala da morte da mãe, quando ele tinha nove anos: “Com a morte de minha mãe, toda a felicidade serena, tudo o que era tranquilo e confiável, desapareceu da minha vida. Estava por vir... nada da velha segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida”.6

Ele estava afastado do pai, que o reprovava, e sofria intimidação dos valentões dos colégios internos, um dos quais tinha um diretor que foi declarado insano. Nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, Lewis foi atingido por estilhaços em três lugares do corpo, um dos quais ficou alojado tão próximo de seu coração que nunca pôde ser removido. Aos dezenove anos, já tinha visto incontáveis amigos mortos durante a guerra. Por anos, diz Doug Gresham, Lewis sofreu com pesadelos terríveis, em que era posto novamente nas trincheiras.7

Apesar de ser tremendamente popular entre seus alunos, incomodava bastante a Lewis nunca ter sido chamado para ser professor ou dirigir um departamento em sua faculdade da Universidade de Oxford, a Magdalen College. Foi a rival de Oxford, a Universidade Cambridge, que lhe ofereceu a cadeira de literatura medieval e renascentista, em 1954. Seus colegas em Oxford ressentiam-se de sua fé e estavam ou constrangidos por sua popularidade entre as massas (aquelas pessoas comuns) ou com inveja dela.

Lewis passou muitos anos cuidando da Sra. Moore, a mãe criteriosa e exigente de um amigo que havia morrido na guerra. O fardo diário de escrever correspondências, diversas doenças e o alcoolismo de seu irmão, Warnie, custou caro demais para ele.

Muitos cristãos veem a Deus da perspectiva da teologia da prosperidade. Quando o sofrimento vem, creem que Deus falhou. O amor e a bondade de Deus, todavia, não significam que a vida sempre será como queremos! Você já notou isso? Lewis havia notado. O problema do sofrimento certamente não é ingênuo. Lewis disse:

Deus, que nos criou, sabe o que somos e que nossa felicidade repousa nele, contudo não a buscamos nele enquanto ele nos deixar qualquer outro recurso em que ela possa ser procurada de maneira plausível. Enquanto o que chamamos “nossa vida” continuar satisfatório, não o entregaremos a ele. O que, então, Deus pode fazer em nosso interesse, a não ser tornar “nossa vida” menos satisfatória e privar-nos da fonte plausível da falsa felicidade?8

Ele perguntava: “O que as pessoas querem dizer quando afirmam: ‘Não tenho medo de Deus porque sei que ele é bom’? Será que nunca foram ao dentista”?9

O sofrimento pode ser o caminho para a graça transformadora. Lewis caminhou nessa estrada. Quando o câncer de Joy estava causando muito sofrimento, Lewis escreveu a um amigo: “Não estamos necessariamente duvidando de que Deus fará o que é melhor para nós. Estamos nos perguntando o quão doloroso será passar pelo que é melhor para nós”.10

O céu: a resposta de Deus ao sofrimento

Paulo resumiu o remédio eterno para o mal e o sofrimento em Romanos 8.18: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós”. Após citar Romanos 8.18 em O problema do sofrimento, Lewis diz que “um livro sobre o sofrimento que nada diga sobre o céu está praticamente omitindo todo um lado da história. As Escrituras e a tradição têm por hábito contrabalançar as alegrias do céu no prato da balança com os sofrimentos terrenos, e nenhuma solução do problema do sofrimento que não fizer o mesmo poderá ser chamada de cristã”.11

Ele está absolutamente correto. É estranho que existam livros cristãos sobre o mal e o sofrimento que não digam quase nada sobre o céu. Mas os nossos sofrimentos presentes precisam ser vistos sob a luz da promessa da alegria eterna em Deus. A balança não pode ser equilibrada nesta vida apenas.

Paulo afirma em 2 Coríntios 4.17: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”. Leia 2 Coríntios 11.24-28 e você verá o registro da tribulação “leve e momentânea” de Paulo:

Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.

O fato de Paulo chamar estas tribulações de “leves e momentâneas” nos diz muito sobre a glória com a qual ele as comparava. De fato, alguns sofrimentos pesam tanto — genocídios, estupro, tráfico humano, tortura, crianças morrendo de leucemia ou de fome — que o que está no outro lado da balança deve ter um peso além de todo entendimento. E tem: a alegria eterna, adoração e serviço ao Rei dos reis como povo ressurreto em uma terra ressurreta.

Não é à toa que Satanás, o mentiroso, tenta nos enganar quanto ao céu e à ressurreição. Se ele nos convencer de que a eternidade será monótona, que gastaremos nosso tempo flutuando nas nuvens, então desperdiçaremos esta vida, pensando que é a nossa única chance de provar a felicidade. Ironicamente, em uma época em que as pessoas ajustam a teologia aos seus desejos, ignoramos verdades bíblicas sobre a eternidade que são muito mais desejáveis do que equivocadamente acreditamos. Não deveríamos abraçar o verdadeiro ensino bíblico da ressurreição e da nova terra e deixar-nos — nós e nossos filhos — empolgar com ele?

Veja Romanos 8.

“A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (v. 19). Em todo lugar que olhamos, podemos sentir que alguma coisa está terrivelmente errada. Mas sabemos que há algo bom por vir.

“Pois a criação está sujeita à vaidade [...] na esperança” (v. 20). Quando caíram os zeladores humanos da terra, toda a criação caiu junto com eles. Esta é a maldição. Como descendentes de Adão, somos herdeiros de uma nostalgia pelo Éden que nunca conhecemos, mas que ainda, de alguma forma, circula em nosso sangue.

“... de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (v. 21). Não uma esperança qualquer, mas uma certeza comprada pelo sangue. A mesma criação que caiu junto com o homem se levantará junto com o homem.

“Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, ge-

me e suporta angústias até agora” (v. 22). Estes são os trabalhos de parto da nova vida. Note que Paulo diz “toda a criação”. O que, além da humanidade, está gemendo? Figurativamente, florestas, campos e montanhas. Literalmente, animais que sofrem.

“E não somente [a criação], mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (v. 23).

A ressurreição é o ponto crítico em que o problema do so-

frimento muda de direção. Esta criação geme, nosso povo geme e o próprio Espírito Santo intercede por nós com gemidos (v. 26). Deus não minimiza ou nega o sofrimento. Ele o enfrenta bravamente, no capítulo que talvez seja o mais triunfante da Bíblia.

Pense novamente em 2 Coríntios 4.17. Lá diz que a glória eterna tem um peso muito maior do que o nosso pior sofrimento. Não é que o sofrimento temporário seja pequeno; é a glória eterna que é enorme. Seu sofrimento pode ser um penedo do tamanho da Rocha de Gibraltar. Mas suponha que você coloque esta rocha em um lado da balança e, do outro, o planeta Júpiter. Nossos sofrimentos podem ser muito pesados, mas compare-os com a glória eterna, a alegria que dura para sempre, a beleza sem fim e relacionamentos que nunca serão rompidos. Os pesos relativos mudam a nossa perspectiva, não é?

Nossa ressurreição: a chave para a redenção da criação

Deus nunca desistiu de seu plano para nós e para a terra. Nossos corpos ressurgirão, e toda a terra será renovada, tornando-se tudo o que Deus quis que ela fosse.

Até onde alcançará a redenção? Isaac Watts, um grande escritor de hinos e teólogo habilidoso, acertou o alvo em Joy to the World [Alegria do mundo]: “Onde quer que esteja a maldição”. O plano redentivo de Deus inclui toda a criação que geme — pessoas e animais. Deus não abandonará a sua criação; ele a redimirá. Ele não desiste da terra, da mesma forma que não desiste de nós. A humanidade justa reinará sobre a terra para a glória de Deus — para sempre.

O texto de 2 Pedro 3.13 nos diz: “Segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”. Mesmo que não tivéssemos sido informados sobre a nova terra, teríamos que deduzir a sua existência, já que corpos fisicamente ressurretos precisam de um lugar físico para viver. Um carro novo ainda é um carro. Um corpo novo ainda é um corpo. Uma nova terra ainda é uma terra. “Nova” é o adjetivo, “terra” o substantivo. O substantivo é a coisa. Deus não precisaria chamá-la de nova terra se ela não fosse uma terra real.

Um dos maiores presentes que podemos dar aos nossos filhos e netos é o de ensinar a eles as doutrinas da ressurreição e da nova terra. Eles precisam saber que foram feitos para uma pessoa e para um lugar. Jesus é a pessoa. O céu é o lugar — não um lugar fantasmagórico, mas o lugar central onde Deus habita, que ele promete realocar para a nova terra.

Um homem que conheci há muitos anos disse: “Amo a Deus. Mas a verdade é que quero viver com Jesus para sempre nesta terra, sem o pecado e o sofrimento”. A existência pela qual ele ansiava é exatamente a que Deus nos promete. Não tente animar os seus filhos com a expectativa de se tornarem fantasmas. Eles não são mais capazes de desejar isso do que de desenvolver apetite por cascalho. Deus nos fez seres físicos vivendo em um mundo físico — comendo, bebendo, brincando, trabalhando, amando e sorrindo para a glória de Deus. Essa é a promessa da ressurreição.

Lewis escreveu: “Momentos houve em que achei que não queríamos o céu, porém, com mais frequência pego-me pensando se, bem lá no fundo do coração, alguma vez desejamos algo mais”.12 Isto é verdade, porém é o céu na terra que desejamos, não é?

O problema com a terra não é a sua corporeidade. O problema da terra é o pecado e a maldição. Ansiamos por uma terra restaurada, onde a criação gloriosa de Deus brilhe sem as nuvens tenebrosas do pecado, da morte e da tristeza. Deus fez Adão da terra e para a terra. Ele criou a humanidade para reinar sobre a terra para a sua glória.

Deus não cometeu um erro quando nos projetou para a existência física. É por isso que a doutrina do céu atual, sozinha, é um remédio insuficiente para o problema do mal e do sofrimento. Um estado platônico incorpóreo nunca poderia contrabalançar ou compensar os sofrimentos atuais. Paulo diz: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). O sofrimento físico na terra não pode ser retificado com uma existência incorpórea em um mundo etéreo. Seria uma comparação entre maçãs e laranjas. Romanos 8 compara maçãs e maçãs, uma vida sofrida na terra remediada com uma nova vida gloriosa, com corpos novos, em uma terra nova.

A redenção não é escapar da vida terrena. É recuperar a vida terrena. Quando Jesus morreu, Deus não descartou o seu corpo antigo. O corpo da ressurreição era o corpo antigo, renovado. Deus não descartará estes corpos ou esta terra. Nossos corpos antigos serão renovados, e esta terra antiga também o será.

Transformando o mal no melhor

Em Romanos 8.28, Paulo escreveu: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Este versículo nos revela o que um dia veremos, olhando para trás.

Lewis, em O grande abismo, escreveu que “tanto o bem como o mal, quando plenamente desenvolvidos, tornam-se retrospectivos [...] o Céu, uma vez alcançado, terá efeito retroativo e transformará em glória até mesmo essa agonia”13

A maldição será revertida. Lewis deixa que Aslam explique a magia mais profunda que a feiticeira desconhecia, quando ele morreu por um pecador: “A mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás”.14

O olhar retrospectivo permite que vejamos tudo de maneira diferente. É a razão pela qual podemos chamar o pior dia em toda a história de “sexta-feira santa”.

A fé é como uma memória voltada para o futuro, permitindo que creiamos como se o que foi prometido já tivesse acontecido. Um dia veremos como Romanos 8.28 era verdade o tempo todo, até naqueles momentos em que mais duvidamos dele. José viu isso em Gênesis 50.20, o Romanos 8.28 do Antigo Testamento: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. (Note que José não disse meramente que “Deus fez o melhor que pôde, em meio a circunstâncias ruins”.)

Uma pergunta: Quanto tempo vai passar, vivendo com Deus na nova terra, antes que você diga “Finalmente, todo aquele sofrimento valeu a pena”? Cinco segundos? Cinco minutos? Cinco anos? Talvez você seja pessimista e pense “Demoraria quinhentos anos para valer a pena”. Tudo bem, Bisonho, ou talvez deva dizer Brejeiro; depois de quinhentos anos você terá uma eternidade de alegria sem fim centrada em Deus à sua disposição, comprada com o sangue vertido de Deus. Você consegue pensar em alguma coisa que seja melhor?

Há apenas uma resposta maior que a questão do mal e do sofrimento: Jesus. Você já pensou: Eu nunca faria com o meu filho o que Deus fez comigo! Será que ele não se importa? Imagine Jesus estendendo as mãos, cicatrizadas pelos pregos da cruz, em sua direção, e perguntando: “Essas são as mãos de um Deus que não se importa”? O Filho de Deus, tomando sobre si os nossos pecados, sofreu muito mais do que qualquer pessoa na história.

Se Deus decidiu que todo o sofrimento da história vale o preço que ele pagou, quem somos nós para discordar dele? Ele sabe todas as coisas e tomou sobre si a maior parte do sofrimento humano. Será que ele não ganhou o direito de ter a nossa confiança? Tire um tempo agora para listar as piores coisas que já aconteceram com você e depois liste as melhores coisas. Você se espantará com a quantidade de coisas boas que vieram das coisas ruins. Confie em Deus para fazer o mesmo com as coisas que ainda não fazem sentido. Nas mãos do Deus da graça soberana, os nossos sofrimentos darão à luz uma alegria futura que está além dos nossos sonhos mais fantásticos. Jesus disse que a nossa tristeza se converterá em alegria — não será meramente seguida de alegria, mas transformada em alegria (Jo 16.20). Pense nisso: para os filhos de Deus, o que agora é dor será enfim transfigurado em glória e alegria.

Uma visão mais detalhada de Lewis e da nova terra

Há muito o que desejar quanto a estar com Cristo no céu atual. Como disse Paulo, deixar o corpo é habitar com o Senhor (2Co 5.8).

Lewis escreveu a uma cristã americana que pensava estar perto da morte:

Você não consegue ver a morte como amiga e libertadora? [...] Temer o quê? [...] Seus pecados estão confessados... Será que este mundo lhe foi tão bondoso a ponto de você lamentar deixá-lo? Lá na frente, há coisas muito melhores que as que estamos deixando para trás... Nosso Senhor está o tempo todo dizendo: “Calma, filha, fique sossegada. Solte-se, vou segurar você”.15

Lewis acrescentou: “Sem dúvida, isso não pode ser o fim. Portanto, faça um bom ensaio”. Ele assinou a carta: “Atenciosamente (e, como você, um viajante cansado, próximo do final da viagem)”. Cinco meses depois, Lewis faleceu.

O texto de Colossenses 3 nos manda pensar sobre o céu atual, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mas a Escritura também é clara ao dizer que o céu que deve dominar o nosso pensamento é o reino eterno de Deus, o clímax do drama da redenção desdobrado por Deus.

“Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2Pe 3.13). Como podemos esperar estas coisas se não pensarmos nelas? E como pensaremos nelas se não formos ensinados pela Palavra de Deus? Suponha que você esteja prestes a fazer uma viagem de Miami a Santa Bárbara, com uma parada em Dallas. Dallas não é o seu destino final. Você diz: “Estou a caminho de Santa Bárbara”. Ou no máximo você diria: “Estou indo a Santa Bárbara passando por Dallas”. De acordo com a Escritura, a nova terra é o nosso destino final. O céu atual será uma parada no caminho para a ressurreição. (Será uma parada maravilhosa. Em Filipenses 1.23, Paulo diz que é “incomparavelmente melhor” do que a nossa existência atual; infinitamente melhor do que o aeroporto de Dallas).

A passagem de Apocalipse 21.1-4 retrata lindamente o que espera os filhos de Deus:

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus [...] Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram”.

Nesse texto, Deus diz várias vezes que ele descerá do céu atual e habitará com o seu povo na nova terra. A cidade desce do céu, o lugar da habitação de Deus é “com os homens”, Deus “habitará com eles”, e “Deus mesmo estará com eles”. Apesar da repetição, a maioria dos cristãos aparentemente ainda não crê que o plano de Deus é trazer o céu à terra e habitar aqui conosco para sempre. Não apenas por mil anos, em um reino milenar na antiga terra, mas para sempre na nova terra. Cristo é Emanuel, “Deus conosco”, para sempre. A encarnação de Jesus não foi temporária.

Normalmente, pensamos que subiremos ao céu para habitar com Deus no seu lugar. E, na verdade, é isso o que acontece quando morremos. Mas a promessa final é que Deus descerá e habitará conosco no nosso lugar, na nova terra. O céu final não será “nós com Deus” e sim Deus conosco (Ap 21.3).

Eu gosto do rato valente de Lewis, Ripchip, que resolutamente procura o país de Aslam: “Enquanto puder, navegarei para o oriente no Peregrino. Quando o perder, remarei no meu bote. Quando o bote for ao fundo, nadarei com as minhas patas. E, quando não puder nadar mais, se ainda não tiver chegado ao país de Aslam, ou atingido a extremidade do mundo, afundarei com o nariz voltado para o leste”.16

Ripchip não anseia por um “Reino Fantasmagórico do Nada Nublado” de Aslam. Ele quer estar com o seu rei para sempre naquele país sólido com terra, montanhas, rios, metais, planícies, árvores, animais e pessoas com corpos físicos. O chão estremece sob os passos de Aslam. Aslam é real e tangível, e a sua juba majestosa pode ser tocada, se você ousar. Ripchip ama Aslam não como um espírito incorpóreo, mas como um leão poderoso e tangível; rei dos reis; soberano de Nárnia, da terra e de todos os mundos. Ripchip deseja estar no país de Aslam, pois ele deseja o próprio Aslam.

Desejamos a Jesus, então naturalmente deveríamos querer habitar onde ele vive. Em Hebreus 11.16, lemos: “Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial”. Os patriarcas aspiravam uma pátria superior porque desejavam a Deus. O céu é importante porque é lá onde Deus habita.

Em Cristianismo puro e simples, Lewis lamentou que não somos treinados para desejar o céu:

Toda a educação atual tende a fixar nossa atenção neste mundo […] quando o verdadeiro anseio pelo Paraíso está presente em nós, não o reconhecemos. A maior parte das pessoas, se tivesse aprendido a examinar profundamente seus corações, saberia que querem, e querem com veemência, algo que não pode ser alcançado neste mundo. Existem aqui coisas prazerosas de todo tipo que nos prometem isso que queremos, mas que nunca cumprem o prometido… Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.17

O lado físico do céu

Muitas pessoas têm-me dito que uma terra física, corpos ressurretos e comer e beber carecem de espiritualidade. Lewis diz, em Cristianismo puro e simples:

Não vale a pena tentar ser mais espiritual do que o próprio Deus, que nunca teve a intenção de que fôssemos criaturas puramente espirituais… ele gosta da matéria; afinal, foi ele mesmo que a inventou.18

E:

O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo — que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus formou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia.19

Em Os quatro amores, Lewis faz referência a relacionamentos e cultura redimidos: “Podemos esperar que a ressurreição do corpo signifique também a ressurreição do que se pode chamar de nosso ‘corpo maior’ — a trama geral de nossa vida na Terra, com suas afeições e relacionamentos”.20

Os textos de Isaías 60 e 65 e Apocalipse 21 e 22, relatam que, na nova terra, os reis da terra trarão a sua glória para a Nova Jerusalém, e os seus portões nunca se fecharão. Eles trarão, para dentro dela, os seus resplendores e a honra das nações (v. Is 60.3; Ap 21.21-25). Que resplendores? Tributos ao Rei dos reis.

Não há nada mais sólido, mais terreno e menos fantasmagórico do que as paredes de uma cidade, feitas de rochas e pedras preciosas. Se haverá arquitetura, música e arte redimida, porque não ciência, tecnologia, diversão, escrita, leitura e pesquisa — tudo feito para a glória de Deus? A Bíblia nos diz que “os seus servos o servirão” (Ap 22.3). Teremos trabalho relevante servindo ao nosso Rei. E desfrutaremos de descanso e lazer (Hb 4.1-11; Ap 14.13).

Comeremos e beberemos na ressurreição? A Escritura não poderia ser mais enfática (Mt 8.11; Ap 2.7; 19.9). Jesus disse: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e tomarão lugares à mesa no reino de Deus” (Lc 13.29). Isaías 25.6 diz: “O Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos”. Não será uma refeição excelente? Meus cumprimentos ao chef — o Senhor Deus!

A mentalidade da lista de “coisas a fazer antes de morrer” revela uma visão empobrecida da redenção. Até cristãos acabam pensando: Se não posso viver os meus sonhos agora, nunca o farei. Ou Só se vive uma vez. Mas, se você conhece a Jesus, você vive novamente — e essa vida dura para sempre. É chamada de “vida eterna” e será vivida em um universo redimido com o Rei Jesus.

Não atingimos o nosso auge nessa vida. O melhor ainda está por vir. As oportunidades perdidas serão substituídas por bilhões de oportunidades novas e melhores — algumas delas graciosamente dadas por Deus como recompensas pela nossa fidelidade nesta vida. Não espere morrer para crer nisso. Se você o fizer agora, essa crença mudará o seu modo de pensar, a sua forma de ver as pessoas ao seu redor e o que você fará com o seu tempo e dinheiro, que na verdade são de Deus.

Estou convencido de que a visão típica do céu — a eternidade em um estado incorpóreo — não é apenas completamente contrária à Bíblia, mas também obscurece a verdade, que é muito mais gloriosa: Deus nos promete a vida eterna, vivida com corpos totalmente saudáveis e ainda mais capazes de adorar, criar amizades, amar, fazer descobertas, trabalhar e brincar do que jamais fomos.

Continuidade

Infelizmente, existem cristãos que prefeririam morrer a negar a doutrina da ressurreição, mas que não creem no significado real da ressurreição — que viveremos para sempre como seres físicos em um mundo fisicamente redimido. Esta é uma notícia maravilhosa — é exatamente o futuro que desejamos.

O Cristo ressurreto disse: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos” (Lc 24.39). As cicatrizes testificavam que o seu corpo novo era o mesmo corpo antigo, renovado. Assim seremos nós quando formos ressuscitados. Sem a continuidade entre o velho e o novo, a ressurreição não seria ressurreição.

Lê-se em Filipenses 3.20, 21: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas”. Cristo declarou que o seu corpo ressurreto era composto de carne e ossos. O nosso também o será.

A Confissão de fé de Westminster de 1646 diz: “todos os mortos serão ressuscitados com os seus mesmos corpos e não outros”. Isso é continuidade. E é o mesmo que disse Jó, no meio do seu sofrimento: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. [Não sobre o céu, e sim sobre a terra.] Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros” (Jó 19.25-27).

Será verdadeiramente Jó. Era realmente Jesus. E seremos nós, verdadeiramente. Ajude as suas crianças a não temerem o céu. Ensine a elas o significado da ressurreição e da continuidade. É claro que se lembrarão de quem são e de quem são os seus familiares e amigos. Quando nos apresentarmos perante Deus para dar um relato das nossas vidas (2Co 5.10), as nossas memórias terão de ser bem melhores, não piores.

Quando eu vim a Cristo, tornei-me uma nova pessoa (2Co 5.17), mas meu cachorro não latiu para mim, minha mãe não ligou para a polícia e disse “Meu filho foi possuído por alienígenas”. Eu era o mesmo eu, renovado. A transformação e a continuidade não são contraditórias. Pessoas novas são pessoas velhas renovadas. Corpos novos são corpos velhos renovados, e a nova terra será a terra velha renovada.

Por que o silêncio?

Quando estudei a Bíblia na faculdade e no seminário, nas minhas aulas nunca falamos sobre a nova terra. Na aula de escatologia, gastamos semanas estudando perspectivas diferentes sobre o arrebatamento. Falamos sobre a volta de Cristo e sobre o milênio, mas as nossas discussões sobre o Apocalipse pairaram tanto sobre o assunto do Anticristo, que nunca chegamos em Apocalipse 21 e 22, que tratam dos novos céus e da nova terra, onde viveremos para sempre com Deus e com a nossa família espiritual, adorando e servindo a ele em alegria eterna, para a sua glória perpétua. (Esta é uma omissão bem notável, se pararmos para pensar.) Ao me tornar pastor, eu já tinha pensado bastante sobre quase todas as grandes doutrinas da Escritura, mas não tinha gastado um minuto pensando sobre onde eu iria passar a eternidade, nos novos céus e na nova terra.

A obra de William Shedd em três volumes, Dogmatic Theology [Teologia dogmática], contém 87 páginas sobre o castigo eterno, mas apenas duas sobre o céu.21 Em sua teologia com novecentas páginas, Grandes doutrinas bíblicas, Martyn Lloyd-Jones dedica menos de duas páginas para o estado eterno e a nova terra.22

A Teologia sistemática clássica de Louis Berkhof devota 38 páginas à criação, 40 páginas ao batismo e a santa ceia, e 15 páginas ao que os teólogos chamam de “estado intermediário” (onde as pessoas habitam entre a morte e a ressurreição). Entretanto, contém apenas duas páginas sobre o inferno e só uma sobre os novos céus e a nova terra.

Quando tudo o que é dito sobre o céu eterno limita-se à página 737 de uma teologia sistemática com 737 páginas, como a de Berkhof (que é uma excelente sistemática), surge a pergunta: Será que a Escritura tem tão pouco a dizer sobre o mundo ressurreto, no qual viveremos para sempre? (Se Shedd, Lloyd-Jones e Berkhof tivessem feito nada mais do que citar os textos bíblicos de Is 60; 65; 66; Ez 48; Dn 7; 2Pe 3; e Ap 21—22, sem acrescentar um único comentário, o espaço usado para tratar desse assunto seria quadruplicado.)

A doutrina dos novos céus e nova terra não é uma reflexão tardia que foi desenvolvida de última hora, e sim um componente central da história redentiva e da intenção redentora de Deus. Se você nunca estudou essas doutrinas bíblicas, eu o incentivo a fazê-lo. Elas irão revolucionar o seu pensamento. Visões pequenas da obra redentora de Deus produzem visões pequenas de Deus. A história redentiva da obra de Deus na terra é poderosa, não a apequenemos.

Como diz o teólogo Greg Beale: “A nova criação é o centro de gravidade hermenêutico e escatológico do Novo Testamento”.23 Ele diz que essa é “a noção dominante da teologia bíblica, porque a nova criação é o alvo ou o propósito do plano redentivo-histórico de Deus; a nova criação é o ponto lógico principal da Escritura”.24

Renovando todas as coisas

Jesus disse: “Por ocasião da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do homem se assentar em seu trono glorioso, vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19.28 NVI). A renovação é uma das muitas palavras da Bíblia que têm o prefixo re-: redenção, regeneração, restauração, reconciliação, ressurreição — palavras que falam de recuperar o que estava perdido.

No livro A criação restaurada, Albert Wolters escreveu:

[Deus] persiste na sua criação original caída e a salva. Ele se recusa a abandonar a obra de suas mãos — de fato, ele sacrifica o próprio Filho para salvar o seu projeto original. A humanidade, que estragou o seu mandato original... recebe outra oportunidade em Cristo; somos reestabelecidos como administradores de Deus sobre a terra.25

O que encontramos nos dois últimos capítulos da Bíblia? Um retorno aos dois primeiros capítulos, porém em uma escala maior e muito melhor. O rio da água da vida, fluindo do trono de Deus, e a árvore da vida, que agora é uma floresta de vida, crescendo em ambos os lados do rio (Ap 21.1,2). Este é um retrato do Novo Éden, localizado no centro da Nova Jerusalém.

Em Gênesis, o Redentor é prometido; em Apocalipse, o Redentor retorna. Gênesis conta a história do Paraíso perdido; Apocalipse conta a história do Paraíso recuperado. Em Gênesis, homem e mulher caem como governantes da terra; em Apocalipse, a humanidade justa governa a nova terra, em lealdade ao Rei Jesus. Satanás e o pecado não irão frustrar o plano de Deus!

Pedro diz em Atos 3.21 que Cristo deve permanecer no céu até chegar a hora em que Deus restaurará todas as coisas, como ele prometeu há muito tempo por seus santos profetas. O que significa este fato de que um dia Deus há de restaurar todas as coisas? Leia os profetas: você verá como Deus promete restaurar a própria terra a condições semelhantes ao Éden (Is 35.1; 51.3; 55.13; Ez 36.35).

Em Letters to Malcolm [Cartas a Malcolm] Lewis escreveu: “Agora só posso falar dos campos de minha juventude — hoje são prédios — de forma imperfeita, por meio de palavras. Mas talvez chegue o dia esteja em que poderemos andar juntos neles”.26

Meu lar, mas muito melhor

Quando eu vim a Cristo, cantávamos uma música na minha igreja: “Este mundo não é meu lar, estou só de passagem”. Bem, é verdade que este mundo, como ele é agora, debaixo da maldição, não é meu lar. Mas este mundo, no seu estado redimido, será o meu lar para sempre.

Apesar de algumas alusões à nova terra que Lewis faz aqui e ali em seus livros de não ficção, ele pinta um retrato impressionante da nova terra em A última batalha, o último livro de Nárnia. Nós nos identificamos com o lamento de Precioso, o unicórnio, sobre Nárnia: “pois que outro mundo, além de Nárnia, eu já conheci”? E este é o único mundo que nós conhecemos. Lúcia também lamenta o fim de Nárnia. Mas então ela percebe o que está vendo:

— Aquelas colinas, lá, cobertas de florestas, e aquelas azuis, lá atrás... Não são iguaizinhas às da extremidade sul de Nárnia?

— I-guai-zi-nhas! — exclamou Edmundo, após um momento de silêncio. — Puxa, são exatamente iguais! Vejam! Lá está o Monte Piro, com seu cume bifurcado, e depois o desfiladeiro que vai dar na Arquelândia e tudo o mais.

— E ainda assim não é a mesma coisa — disse Lúcia. — É tudo diferente. Tudo é muito mais cheio de cores e parece muito mais longe do que eu recordava, e os montes são mais... mais... Oh! Não sei explicar!

— Muito mais reais — opinou Lorde Digory, baixinho.De repente, Sagaz abriu as asas e saiu voando. Planou no ar a uns dez ou doze metros de altura, voou em círculos e depois pousou no chão novamente.

— Reis e rainhas — exclamou —, estávamos todos cegos! Estamos apenas começando a perceber onde nos encontramos. De lá de cima dá pra enxergar tudo: o Espelho d’Água, o Dique dos Castores, o Grande Rio, e Cair Paravel ainda resplandecendo às margens do Mar Oriental. Nárnia não morreu. Isto aqui é Nárnia!27

Lewis lindamente reflete a verdade bíblica da nova terra:

— A águia tem razão — disse Lorde Digory [...] a Nárnia em que vocês estavam pensando [...] era apenas uma sombra, uma cópia da verdadeira Nárnia que sempre existiu e sempre existirá aqui, da mesma forma que o nosso mundo é apenas uma sombra ou uma cópia de algo do verdadeiro mundo de Aslam. Lúcia, você não precisa prantear Nárnia. Todas as criaturas queridas, tudo o que importava da velha Nárnia foi trazido aqui para a verdadeira Nárnia, através daquela Porta. Tudo é diferente, sim; tão diferente quanto uma coisa real difere de sua sombra, ou como a vida real difere de um sonho”...

Os campos da nova Nárnia eram muito mais vivos: cada rocha, cada flor, cada folhinha de grama parecia ter um significado ainda maior. Não há como descrevê-la: se algum dia você chegar lá, então compreenderá o que quero dizer. Foi o unicórnio quem resumiu o que todos estavam sentindo... [ele] exclamou: — Finalmente voltei para casa! Este, sim, é o meu verdadeiro lar! Aqui é o meu lugar. É esta a terra pela qual tenho aspirado a vida inteira, embora até agora não a conhecesse. A razão por que amávamos a antiga Nárnia é que ela, às vezes, se parecia um pouquinho com isto aqui.28

A nova terra será diferente? Sim, claro, assim como nós também o seremos. Ainda seremos nós, mas aperfeiçoados. Na nova terra, diremos: “A razão por que amávamos a antiga terra é que ela, às vezes, se parecia um pouquinho com isto aqui”. E diremos, como o unicórnio: “Mais para cima e mais para dentro”!29

Nossos filhos e netos adoram aventuras. Digamos a eles que a eternidade será a grande aventura que nunca termina. E que, se eles não virem ou fizerem tudo o que querem nesta vida, não há problema: eles viverão para sempre na nova terra que é bem melhor, sem pecado, sofrimento, guerra, tristeza e morte.

Eustáquio fica intrigado porque “vimos tudo ser destruído e o sol se apagar”.30 Sim, a antiga Nárnia foi destruída, mas esta é a Nárnia ressurreta. Da mesma forma, as pessoas dirão: “Mas 2 Pedro 3.10-12 diz que a terra será destruída”. Claro. A morte sempre precede a ressurreição. “A nova terra” não significa que a terra não morra, e sim que, depois de sua morte, ressurgirá. Pode parecer impossível para nós, mas é simples para Deus.

Quando as crianças veem a casa do Professor Kirke, onde entraram no guarda-roupa pela primeira vez, Edmundo diz: “Eu pensei que aquela casa havia sido destruída”. O fauno, o senhor Tumnus, responde que foi destruída sim, “Mas o que você está vendo agora é a Inglaterra dentro da Inglaterra, a verdadeira Inglaterra, do mesmo jeito que isto aqui é a verdadeira Nárnia. E naquela Inglaterra interior nada de bom pode ser destruído”.31

Provai e vede

Deus ainda não terminou o que quer fazer com esta terra. Ele promete uma nova terra com uma nova Jerusalém. E por que não outras cidades renovadas, também (como Jesus diz: “Também você, encarregue-se de cinco cidades”, em Lc 19.19)? Por que não uma nova Irlanda, onde Lewis caminhará conosco nos campos de sua infância? Ou talvez voltemos no tempo para isso. Por que não novas Cataratas do Niágara, um novo Lago Victoria, um novo Grand Canyon, uma Nairobi redimida, uma Seatle glorificada?

Jesus não era carpinteiro por acidente. Carpinteiros criam e consertam as coisas. O carpinteiro de Nazaré fez o universo e vai consertá-lo. Deus é o maior artista de reciclagem que o mundo já viu. E o que ele restaurar será muito melhor do que o original. Ele se alegra nisso, e nós devemos nos alegrar nele.Em O peso de glória, Lewis disse:

Os pálidos e distantes resultados dessas energias que o arrebatamento criativo de Deus implantou na matéria quando fez o mundo são o que agora chamamos de prazeres físicos. E, mesmo filtrados assim, são demais para a nossa atual capacidade de lidar com eles. Como seria provar a água do riacho em suas cabeceiras, água que até mesmo no leito mais baixo é tão inebriante? Entretanto, é isso, creio eu, que está diante de nós. O homem completo, corpo e alma, beberá alegria na fonte da alegria.32

Os melhores prazeres que desfrutamos aqui — comida boa, relacionamentos, adoração e cultura — são meros antegostos daquilo que nos espera na nova terra, onde viveremos sem pecado, sem morte e sem maldição. Naquele mundo, sempre veremos que o próprio Deus é a fonte da alegria.

A ausência da morte significa a ausência do pecado

Cristãos que acham que o céu será monótono mostram que pensam que Deus é chato. O inferno será monótono. O céu será a aventura máxima, pois Deus é a aventura máxima. Nunca conseguiremos exauri-lo. Paulo diz em Efésios 2.7: “nas eras que hão de vir, [Deus irá mostrar] a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus”.

Lê-se em Apocalipse 22.3-5: “Já não haverá maldição nenhuma. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade, e os seus servos o servirão. Eles verão a sua face [...] e eles reinarão para todo o sempre”.

Ver a Deus é o que os antigos chamavam de “visão beatífica”. O termo significa, literalmente, “a visão que faz feliz”. Ver a Deus será sentir alegria sem redução alguma. Quando pensarmos em dizer “Nada pode ser melhor do que isso”, será.

O texto de Salmos 16.11 diz: “Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita”. Quem precisa de uma lista de coisas a fazer antes de morrer? A promessa do evangelho, comprada com sangue, é essa: viveremos felizes para sempre — com Deus, a fonte de toda a felicidade.

Haverá uma segunda queda no estado eterno? De maneira alguma. Teremos a justiça de Cristo. Pecado? Águas passadas. A ilusão da sua atração terá se esvaído.

Lewis retrata essa verdade desta forma, em A última batalha:

Cada um deles ergueu a mão para apanhar a fruta que mais lhe apetecia, e então todos pararam por um instante. As frutas eram tão lindas que todos tiveram o mesmo pensamento: “Estas frutas não são para mim. [...] Certamente não podemos colhê-las”!— Tudo bem — disse Pedro. [...] — Tenho a impressão de que nós chegamos àquele país onde tudo é permitido.33

Felizes para sempre

No capítulo final de A última batalha, intitulado “Adeus às Terras Sombrias”, Aslam revela uma notícia chocante às crianças: “‘Aconteceu mesmo um acidente com o trem’, explicou Aslam. ‘Seu pai, sua mãe e todos vocês estão mortos, como se costuma dizer nas Terras Sombrias. Acabaram-se as aulas: chegaram as férias! Acabou-se o sonho: rompeu a manhã!”.34

E, à medida que ele falava, já não lhes parecia mais um leão. E as coisas que começaram a acontecer a partir daquele momento eram tão lindas e grandiosas que não consigo descrevê-las. Para nós, este é o fim de todas as histórias, e podemos dizer, com absoluta certeza, que todos viveram felizes para sempre. Para eles, porém, este foi apenas o começo da verdadeira história. Toda a vida deles neste mundo e todas as suas aventuras em Nárnia haviam sido apenas a capa e a primeira página do livro. Agora, finalmente, estavam começando o Capítulo Um da Grande História que ninguém na terra jamais leu: a história que continua eternamente e na qual cada capítulo é muito melhor do que o anterior.35

Tal é o plano redentivo do Rei Jesus: vasto e abrangente.Muitas noites eu ainda olho para a galáxia de Andrômeda e sinto o desejo de visitá-la. Será que Deus colocou isso em meu coração? Quando Deus criar os novos céus, será que existirá uma nova galáxia de Andrômeda? Ou outras novas galáxias, nebulosas, planetas, luas, cometas? Por que não? Será que viajaremos para estes lugares, um dia, para testemunhar a magnificência criativa de Deus? Se eu o fizer, meu coração transbordará de louvor ao Deus que redimiu não só aquele menininho que olhava pelo telescópio, mas também o grande universo que, com suas maravilhas, me atraiu a Cristo.

 

1 São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 87 (grifo do autor).

2 Ibid., p. 39 (grifo acrescido).

3 São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 275.

4 4 Ibid., p. 175.

5 São Paulo: Vida, 2009, p.17-9.

6 São Paulo: Mundo Cristão, 1998, p. 28.

7 Jack’s Life: The Life Story of C. S. Lewis (Nashville: Broadman, 2005), p. 158.

8 P. 109.

9 A anatomia de uma dor. São Paulo: Vida, 2013, p. 66.

10 Letters of C. S. Lewis. Orlando: Harcourt, 1966, p. 477.

11 P. 161-2.

12 Ibid. p. 162.

13 P. 83.

14 O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, p. 76.

15 Cartas a uma senhora americana. São Paulo: Vida, 2006, p. 144-5.

16 A viagem do Peregrino da Alvorada. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 290-1.

17 São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 189.

18 Ibid.

19 Ibid.

20 São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 189.

21 W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology, 3 vols. (Grand Rapids, MI: Zondervan, n.d.).

22 A igreja e as últimas coisas, vol. 3. São Paulo: PES, 1999, p. 298-9.

23 “The Eschatological Conception of New Testament Theology”, in: Eschatology in Bible and Theology. Kent E. Brower; Mark W. Elliott, orgs. Downers Grove: InterVarsity, 1997, p. 50.

24 Ibid., p. 21-2.

25 São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 80.

26 New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1963), p. 121-2.

27 27 São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 265-6.

28 Ibid., p. 267-269 (grifos acrescidos).

29 Ibid., p. 276.

30 Ibid., p. 267.

31 Ibid., p. 287.

32 São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 47.

33 P. 216.

34 Ibid., p. 289.

35 Ibid., p. 289 (grifo acrescido).

Randy Alcorn (@randyalcorn) is the author of fifty-some books and the founder and director of Eternal Perspective Ministries